Da Linha do Tiro, direto para Berlim

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Peças confeccionadas por mulheres de comunidades de baixa renda da Zona Norte do Recife serão destaque em desfiles de um dos eventos de moda mais importantes do mundo. Da Linha do Tiro, Chão de Estrelas, Arruda, Alto José Bonifácio, Brejo, Morro da Conceição, Alto da Foice e Alto do Pascoal saíram biquínis feitos a mão que serão usados por modelos internacionais na Semana de Moda de Berlim 2019, de 15 a 18 de janeiro de 2019.
As peças são produzidas por 12 recifenses – a maioria mães solteiras que buscam independência financeira para criar os filhos. A ponte entre elas e o Velho Continente é a assistente social e designer Domitila Barros, 34 anos. Natural da Linha do Tiro, a pernambucana vive na capital da Alemanha há 12 anos. Pela primeira vez, vai levar o vestiário de moda praia para as passarelas da Europa.
Domitila saiu do Recife aos 21 anos para fazer mestrado na Alemanha. Formada em serviço social pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), ela buscava aperfeiçoamento acadêmico em Berlim. Para se sustentar durante o período de estudo, começou a trabalhar como modelo e atriz.
“Sempre gostei de moda praia e pensava em trabalhar com algo assim, mas a vertente social não podia ficar de lado. Foi quando, há um ano e meio, pensei em unir o empoderamento das mulheres de comunidades onde cresci com o que o público europeu queria consumir”, afirma.
Há 35 anos, os pais de Domitila fundaram a Casa de Atendimento a Meninos e Meninas (Camm), na Linha do Tiro. Lá, as mulheres que fazem a confecção dos biquínis passam por capacitações. “A ideia não é apenas usar o trabalho delas, mas treiná-las para trabalhar não só para a exportação, mas ter seus próprios clientes”, diz a designer das peças.
As participantes assistem a aulas de design para moda praia e aprendem também a usar as redes sociais para divulgar os seus trabalhos. “O objetivo final é empoderar essas mulheres para que elas conquistem independência financeira. Elas dizem o preço e o tempo de cada um dos produtos que costuram”, explica Domitila.
Depois de produzidas, as peças são enviadas à Europa, para comercialização. Lojas físicas na Suíça, Alemanha e Estados Unidos vendem os biquínis brasileiros. No mercado virtual, os clientes são de todo o continente europeu, além de Israel, Egito, Austrália e Japão. O grupo começou produzindo 10 biquínis para testar a aceitação do público. Hoje, são cerca de 300 por mês. “Apenas o envio de 200 g para a Alemanha custa R$ 500. Isto é, o custo é muito elevado, principalmente se compararmos com os valores da China, que remete para a Europa a um baixo custo. No entanto, a ideia é ser fiel ao objetivo de empoderar as mulheres do Recife e não o lucro econômico apenas”, enfatiza.
A meta, agora, é expandir os negócios após a Semana de Moda de Berlim. “Nosso sonho é fazer com que todas essas mulheres tirem o sustento dessa confecção e possam trabalhar em casa, tendo tempo para criar os filhos, já que a maioria foi abandonada pelos pais das crianças, e também realizar outros desejos, como ingressar em uma faculdade”, diz Domitila.

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