FHC tem legitimidade para sugerir o que quiser. E nós temos a prerrogativa de concordar ou não com o que ele diz

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A divergência é o sal da terra. Noutro dia ouvi de um companheiro e
querido amigo: “Você criticou o Fernando Henrique!”. Tomei um susto.
Por que não criticar o ex-presidente? Se ele, vindo da academia como
veio, não abre mão da polêmica, ousa pensar, formular, propor, quase
sempre na direção justa, qual seria o problema em divergir? E,
quando comete algum despautério, como insinuar um Luciano Huck no
páreo presidencial, por que não criticá-lo? FHC tem toda a
legitimidade para sugerir o que quiser. E nós todos temos a
prerrogativa de concordar ou não com o que ele diz.
Fernando Henrique polemiza brilhantemente até quando diz conseguir
ver novidade em Huck. (O apresentador confirmou na quinta-feira que
não será candidato à Presidência da República.) “Novo”? Meu Deus!
Velho é o jovem apresentador até quando compra jato executivo com
recursos do BNDES. (A revelação, feita antes do anúncio da
desistência, foi rebatida pela assessoria de Huck, que informou ter a
Acordem, tucanos!
FHC tem legitimidade para sugerir o que quiser. E nós temos a
prerrogativa de concordar ou não com o que ele diz
16 fev 2018, 06h00
aeronave sido adquirida por meio de programa de incentivo à
indústria nacional e que o apresentador a usa duas vezes por
semana para gravar seu programa para a Rede Globo.) Velho em
suas “bondades” das tardes de sábado. Velho a ponto de nem mesmo
Fernando Henrique lograr êxito em rejuvenescê-lo. Não vejo em qual
circunstância caberia transformar o país num grande programa de
auditório, como sugeriu o ex-presidente. Seria perigoso confundir a
apresentação de quadros como Lata Velha e Lar Doce Lar com uma
inclinação política para projetos sociais. São nada mais que
entretenimento lucrativo para anunciantes e apresentador, sem
nenhuma intenção nem capacidade de melhorar estruturalmente a vida
das pessoas.
O PSDB tem no cerne da sua história a defesa intransigente da
democracia, o fortalecimento dos partidos e uma aproximação maior
com os eleitores. Mas, quando se trata de olhar para dentro, a lição
não se aplica. Nosso presidente de honra não é exceção à regra e
tem demonstrado isso em diversas ocasiões. Primeiro, em relação às
prévias. Em vez de estimulá-las, reconhecendo as candidaturas
postas à votação para a Presidência da República, Fernando
Henrique cometeu uma sucessão de erros. Ao optar publicamente por
seu conterrâneo paulista, o governador Geraldo Alckmin, desencorajou
o uso desse instrumento legítimo e democrático. Recentemente, para
conturbar ainda mais o processo, chegou a insinuar a defesa de um
nome de quem não é candidato e tampouco pertence ao partido.
Atitudes assim ajudam a tirar ainda mais a credibilidade das prévias e
despejam instabilidade na legenda.
Comuniquei ao meu partido, em outubro, minha intenção de disputar
prévias internas, com o objetivo de sair candidato à Presidência da
República. No início, houve quem encarasse a ideia das prévias com
olhar de pouco-caso e ceticismo. Afinal, como poderia alguém vir do
Norte para tentar romper a visão paulistocêntrica, que condenou o
partido a amargar quatro derrotas sucessivas em pleitos nacionais?
Ao mesmo tempo, o prefeito João Doria, recém-chegado ao comando
da principal cidade latino-americana, ensaiava passos de pretendente
ao Planalto, o que não parece ter causado estranheza ao partido. A
mensagem ficou clara: “Uma candidatura a mim é vedada e a ele não”.
A candidatura presidencial de 2018 estava reservada a Geraldo
Alckmin desde o “episódio Aécio”, em que pese a dificuldade que o
governador de São Paulo encontra para alçar voo de condor.
Determinismo estranho. O que fiz foi chacoalhar o partido e desafiar
pelo menos esse destino. Fui chamado de imprudente por uns e
“criador de caso” por outros, todos esquecidos de que deve ter sido
mesmo “imprudente” o enfrentamento sem trégua que travei contra o
ex-presidente Lula quando ele, durante seus governos, era
praticamente uma divindade.
Os que preferem o status quo não percebem que a cabeça do eleitor
brasileiro mudou. A dubiedade não é cabível, as reformas são
inadiáveis e não realizá-las é crime que lesa as novas gerações. É
indesculpável, por exemplo, que a bancada de deputados não vote
fechada com a reforma da Previdência. Além disso, hoje o PSDB é
visto como o segundo partido mais corrupto do Brasil, “perdendo”
apenas para o inefável PT — ou seja, o partido se encontra em
situação pior do que a de todos os demais nas descobertas sobre o
formidável assalto cometido contra os cofres públicos.
O PSDB transformou as prévias internas numa novela. O Brasil não
quer mais que as coisas sejam assim. A transparência é necessária,
as decisões a portas fechadas já não encontram lugar no processo
democrático. Se assim for, o país poderá concluir que a opinião de
mão única de hoje se transformará em imposições indesejadas aos
seus filhos amanhã. Enquanto o PSDB regride, bailam livres e
atrasadas as opiniões de um Ciro Gomes, pressuroso em herdar
votos de um Lula possivelmente inelegível. Ou até mesmo os dizeres
de um Bolsonaro, despreparado e homofóbico.
É hora de enfrentar as desigualdades regionais, os preconceitos
caolhos, as estruturas econômicas esclerosadas. O Brasil está pronto
para ser governado sem populismo nem demagogia — por quem
odeie a pobreza, e não as pessoas infelizmente pobres. Por quem
goste de rua e saiba governar.
Retorno ao PSDB para dizer que não deveríamos ter debatido a agora
finada candidatura de um apresentador de TV. Só retomando com
seriedade as pautas históricas do partido conseguiremos nos
credenciar para recuperar o respeito da opinião pública. Seria mais
benéfica a interferência do seu líder maior, Fernando Henrique
Cardoso, em assuntos com o potencial de mudar o país, como é o
caso da reforma da Previdência. Mais: deveríamos, com o apoio de
FHC, expor o nome dos “traidores que votaram contra o futuro dos
filhos e netos dos trabalhadores”. Não é assim que as corporações do
atraso operam? Pois que façamos o mesmo, só que em nome do
futuro.
* Arthur Virgílio Neto é prefeito de Manaus, foi deputado, senador,
líder do governo FHC no Congresso e secretário-geral da
Presidência

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